12 outubro 2011

Encontros Nostálgicos

Trinta e oito anos, e vinte e oito dias, aproximadamente. E lá vai ELA, toda pomposa e senhora de si, descendo rua abaixo portando seu Visa... O estandarte das vitórias camufla as cicatrizes do destino, e ELA, somente ELA, mais ninguém, sabe o ônus cobrado por cada lição de vida; embora omitidos seus flagelos, e silenciada a verdadeira dimensão do rombo causado por tantas quantas ausências, ELA não subestima o flagelo deixado dentro de si, e está prestes a se deparar novamente com os lembretes de que a vida segue seu curso; para todos.


Houvesse, hipoteticamente, cogitado tal encontro, é possível que ELA se desviasse; mas, as coisas se dão assim, quando menos se espera, embora se pressinta que estão para ocorrer; houveram sinais, pressentimentos, haviam recordações desenterradas, em autópsia necessária à adolescência tão enaltecida, e ao todo das estórias, por várias circunstâncias, ultimamente tão salutares, inevitável que as figuras das "melhores amigas" não viessem à tona. Improvável, totalmente impossível que, do relicário do tempo, dentre os pertences dos anos, não sobressaísse o camafeu, em alto relevo destacando traços, traços de alguém tão relevante, partícipe atuante de um período nem tão remoto assim...


Uma rica amizade, desfeita justamente pelo comprometimento de se alertar, sem que a outra parte, preferindo conscientemente a dormência da razão, a ouvisse. ELA não quis ouvir a amiga, e o custo foi, infinitamente extenso...


ELA se lembra da última vez que viu a amiga. Sua amiga estava vestida de noiva, e ELA intuiu, naquela noite, que o convite, embora feito de bom grado, seguiu em cortesia, nada mais; uma despedida simbólica, eis que ELA, diplomaticamente, pela tristeza causada à sua sempre tão fiel confidente, daquela data em diante, seria afastada. E assim foi.


Houvesse refletido, analisado melhor, refrearia a alegria de rever os parentes da amiga e, não, não seria exposta ao desconcertante desconhecimento de sua identidade; as pessoas mudam, embora permaneçam iguais em essência e ELA, ELA por breve momento, desconsiderou a distância entre ambas, sendo para lamento amargado, trazida em regresso ao presente, e nele, quanto a tudo pertinente à amiga, ELA havia deixado de existir, paralelamente sobrevivendo num universo relegado aos esquecidos...


Trinta e oito anos, e vinte e oito dias, sendo que dos dez últimos anos, mal sabia, era ELA um fantasma de si mesma, andarilha já quase apagada do arquivo principal daqueles por quem, ocultamente, em remorso abundante, grande estima inda cultuava.


E o ciclo da vida continuaria, para a amiga, e para ELA; haveria ainda muita estrada pela frente; em pensamento, desejou boa sorte, saúde, felicidade, harmonia, alegria, mas, o número telefônico concedido por conta própria, sem pedido prévio, pelo parente da saudosa amiga, ELA rasgaria assim que possível, afinal, não havia nada a ser dito, visto...nãaaao, não mais; afinal, estava tudo bem, tudo graças a Deus muito bem, obrigada, com ELAS, e isso bastava; bastaria!

ELA não estava ressentida com o esquecimento por parte dos parentes da AMIGA, ELA se ressentiu consigo mesma pelos erros passados, e, enfim, findado o cumprimento desajeitado entre as partes, seguiu ELA rumo a...onde mesmo? Ah sim! Rumo às compras...


Lamentou, isso é fato, que dentre tantas aquisições, nenhuma poderia, jamais, substituir o valor do camafeu em alto relevo, guardado no relicário da memória, embora eternizado junto a cada trincadura.
F.

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