30 outubro 2013

A lição de Ione




Debaixo dos Caracóis

Capítulo II

-Vou te contar, Aurora...A gente não deve desejar mal pros outros, principalmente pra uma mão que já foi estendida procê um dia!
-Verdade, Virgínia!
-Eu tô vendo ali, ó, a filha de Antônio Luiz e Marilene, sentada no boteco do Nhônhô.
-Umas moça bonita, bebendo que nem homem, com as caras amaçadas, se oferecendo. No nosso tempo moça de família não passava creon assim nos olhos nem entrava em botequim , Virgínia!
-Ia mesmo não, Aurora! E, no nosso tempo, sobrinha pedia bênça a tio, mesmo que o tio tivesse idade pra ser filho das sobrinhas! Hoje em dia, mãe não educa, os pais não estão nem aí, e crescem as gerações misturadas sem saber quem deve pelo menos respeito, a quem.
-O que que ela fez?
-Uai, Sá. Ela, e os outros primos, foram criados...Quer saber Aurora, doa a quem doer, a maioria já tá morta que nem nós duas mesmo, e erro todo mundo comete, mas na casa de Almiro e Marialva esses meninos foram criados solto que nem animal no terreiro, numa cachorrada de filho misturado com neto, tios e sobrinhos, primos e primas, tuuuudo regulando idade, e num banzé tão grande que só podia dar no que deu! Uma patifaria atrás da outra!
-Mas lá em casa a gente também foi criada junto...
-A gente nada! Imagina se uma de nós fosse bisbilhotar vida de tio, a chamada debaixo de vara de marmelo que levaria! Nesse lugar não! Era uma algazarra tão grande que adoeceram Marialva, e ainda berram e sapateiam jurando que foi macumba que entrevou a mente da mãe! Macumba naaaada! Resguardo de quatorze filhos, quebrados, panela pra arear, lenha e água pra buscar, comida pra fazer, roupa pra bater nas beiras dos corgos, e, casa cheia fim de semana quer fosse de filho, genro, nora, netaiada esparramada e mais comida pra fazer, cama pra estender, biscoito de polvilho pra assar, enquanto a pinga e o baralho rolavam soltos. E essazinha aí, Ione, era ainda pequena, mas já tinha umas primas muito estúpidas, brutas, um bando de mulher metida a tomba-homem, que vigiava os tios e os primos igual oi pior que cadelas no cio! Tanto que uma namorou mais de dez anos com um rapaz bom, mas bom, sem defeito, coitado, e terminou o namoro abrindo as pernas pro primo dentro da casa da tia, com o namorado sentado na varanda do lado de fora da casa!
-Ah, crendospai! Ocê tá brincando!
-Foi um bafafá, Aurora! Terminou o namoro com o moço, já de caso com o primo, e em pouco tempo a barriga estufou!
-Ôh Senhor!
-E pra tapar a putaria dela com o primo, com quem foi criada como se fossem irmãos, essa Maria, neta de Marialva, encrespou com o namoro do tio, Juliano, que estava começando namoro com Didizinha, mas fez uma esparrela, aprontou cada uma...
-Esse namoro, esse namoro, Virgínia! Didizinha arranjou dor de cabeça pra ela e pra gente!
-Didizinha foi muito ingênua se misturando com a família do pai dela!
-Tinha perdido a mãe. A gente tem se de por no lugar dela...Ela se sentiu sozinha, sem irmãos, sem pai nem mãe vivos!
-Solidão agora é desculpa pra burrice e desobediência? A nossa sobrinha, mãe dela, criou ela sem rodeios. "Não queira mal, trate bem, mas eles lá e ocê mais além!" Ela não deveria ter pisado na casa de Almiro nunca! Bem teria ficado ela pra cá, o rapaz, que hoje é marido dela, ficaria muito bem pra lá também, e a vida de todos dois talvez fosse melhor; mas, foi a vontade deles e de Deus, fazer o quê?!
-É. Se ajudar a gente não pode, atrapalhar muito menos!
-Pois então. Essa gente é ainda muito crua, muito ruim! Daqui do outro lado da vida, nós enxergamos...é gente que vem de uma existência arrastada em sofrimento, reencarnada para aprender como todo mundo, mas de aprendizagem lenta, eles não sabem nem diferença de bom e ruim, que dirá de bem e mal! Quem entra em estábulo é pra levar coice! Foi o que Didizinha levou! Os dois namorando e a língua chicoteando. Era melhor, pra eles, comentar da vida de Juliano e Didizinha do que de Renan e Maria. E tenho pra mim que esse Renan casou mesmo foi obrigado! Sisma minha!
-E Ione, o que tem com isso?
 -E a cabrita cretina dessa Ione junto; nem idade tinha, mas já punha as amiguinhas pra irritar Didizinha, se oferecendo pra ele! Juntou com a prima Maria, que passou a ser cunhada também, e era essa Maria de frente, e Ione pelas costas, a língua, chicote do corpo, descendo nos outros!
-Muito baixo. - As caretas de Aurora e Virgínia eram hilárias.
-Ó, se pensamento matasse, o despeito dessas biscas tinham enterrado Didizinha.
 -Ninguém é obrigado a gostar de ninguém não, Virgínia! Eles não gostavam de Didizinha e pronto; às vezes nossa sobrinha pode ter feito alguma coisa...
-Barganhou com o Diabo. Comprar amizade com presente é barganhar com o diabo! Quem muito agacha, o rêgo aparece! O erro de Didizinha foi esse! Deixa eu te contar o que aconteceu com essa Ione.
-Então conta.
 -"E ninguém, verdade seja dita, nem as irmãs nem as sobrinhas de Juliano queriam ele de namoro com Didizinha. O casal chegou a separar duas a três vezes, por causa de bagunça de parentes dele com Didizinha, e da última vez, pensei que Didizinha não queria reatar; se perguntarem a qualquer um dos dois como eles voltaram, cada um tem uma lembrança diferente, e Juliano não acredita que já tinha perdido Didizinha ali, desde então.
 Mas reataram, depois de meses separados.
 Uma mulher mal falada, rodada inclusive entre os sobrinhos de Juliano, apareceu grávida. Havia boatos abafados de que a criança era de Juliano . Ione ficou sabendo; e Ione contou pra mãe. Ah, Aurora, para as duas não teve nada melhor! Elas não viam a hora de Juliano descobrir! Confabulavam sobre a reação que Didizinha teria, já que estava com dificuldade de engravidar, e que iria fazer e acontecer, que os dois, por causa da criança, quando viesse à tona que era filho de Juliano, que eles não iriam ficar juntos, e nada contaram a nenhum dos parentes. Guardaram entre si a possibilidade de Juliano ter gerado um filho.
"Ione só ficou sabendo disso tudo por que namorava um moleque, vizinho da moça grávida. Ione, mal completara 18 anos, para mais de dois não era mais moça, e saiu da casa materna pra ir morar com esse rapaz, da idade dela.
 E o tempo foi passando. O namorado de Ione, ("marido", se viveu debaixo do mesmo teto é marido!) trabalhava num supermercado e cortava Ione no chifre, desde lá, atravessando estrada a fora até os meados da casa da mãe dele. E a trouxa aceitando e achando bonito "morar com um moleque sem vergonha!"
 Enquanto isso Didizinha e Juliano reatados, veio a gravidez de nossa sobrinha. No mesmo período que Didizinha engravidou, nascia, lá pras bandas dos Tropeiros a criança que Ione e a mãe sabiam que podia ser de Juliano.
-Me conta uma coisa; Juliano não sabia mesmo deste menino não?
-Sabia não, Sá!
-E Ione e Marilene...
-Marilene não contou pro irmão; mas por maldade, não para resguardar Juliano de nada. Esperava que a bomba explodisse para que o futuro de Juliano e Didizinha se desfizesse ante seus olhos. Ruindade mesmo, pura e simples! Tanto que Deus vendo aquilo que aos homens passa desapercebido, deu-lhe o pago!
-Hãm?!!
-Preferiram esperar sorrateiras o bote do destino. Só que o enredo da vida pertence a uma força maior!
No decurso dos quatro anos seguintes muito, com todos eles, aconteceu.
E um belo dia a mulher dos Tropeiros resolve telefonar a Juliano e contar que o filho de 04 anos era dele, cobrando exame de DNA ou iria à justiça. Didizinha apoiou Juliano, incentivou a fazer o exame e, conhecendo o menino, por ele teve estima. Há vários percalços entre Juliano e Didizinha, mas o filho que ele fez em época que estavam ambos separados, não foi nem é, estorvo.
-Por enquanto.
-O futuro cabe à educação que a inconsequente da mãe vir a dar para ele. Se adestrar o menino pra amolar a madrasta...quem sairá perdendo é o menino! Mas ocê não me deixou contar toda estória!
-Uai, conta!
-A melhor parte. Ione e a mãe não tramaram e se riram pensando no caos que a criança traria para Didizinha e Juliano?
-Sim, sim.
-Vai escutando! Houve separação de um casal por causa de uma criança. Mas não foram Didizinha e Juliano que separaram!
-Quem então?
-Pois não é que o namorado de Ione engravidou uma moça, mesmo morando com Ione?
-Ocê tá brincando?!
-Nãaao. Tô naaaãaao! Ione chegou em casa, "casa que ela pagava aluguel e sustentava para morar com esse moço", ele estava tirando as coisas dele, e simplesmente a abandonou Ione para ir viver com a moça que ele engravidou!
-Que virada!
-Marilene, que tanto mal desejou ao irmão e à cunhada, que além de cunhada era uma prima órfã, teve que engolir a seco o revertério da situação! Marilene teve, e tem, junto da filha, de passar pela humilhação e a ironia da cidade toda! Tudo que Marilene desejou à nossa sobrinha e sua mãe, mesmo morta, é ela quem passa! Já pensou? A cidade toda sabendo que Ione foi usada, abusada, ficou com a fama arruinada, largada e desde então, embora honesta e direita nos negócios, taxada Ione pelas noitadas de esbórnia e bebedeira já chegando aos 30 anos, frustrada, se sentindo mal amada e sem despertar sentimentos verdadeiros num homem. A única coisa que aguça é o instinto, e não amor. Tudo que desejavam ao irmão/tio e à prima, que tinha antes do namoro com Juliano, tanto carinho por Ione, voltou em pescoção às duas. Que sirva de bom exemplo; desgraça alheia não é motivo de anedota, não desejemos mal, nem nos gabemos do tombo dos outros. A vida, assim como o mundo, é redonda, dá suas voltas e, todos temos joelhos para esfolar.
-Cala a booooca, Virgínia!
-Calo nãaaaao, Aurora! calo não!


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