25 outubro 2013


Debaixo dos Caracóis...

CAPÍTULO I

 As duas irmãs já desencarnaram faz tempo. Vez ou outra ainda rondam, entretanto, o pequeno lugarejo mineiro próximo a Curral Del Rey, onde transcorreram a última passagem terrena.

 Naquela manhã ensolarada, em particular, as duas almas foram atraídas pelas orações aflitivas de uma sobrinha-neta. Como toda província, aquela também tinha seu histórico, e nele havia corrupção de valores, havia o preconceito habitual da época, houve muitos crimes passionais e escândalos que, atravessaram descendência à fora atraindo para o momento presente resgates espirituais de toda sorte. 
 "Didizinha" descende de duas das castas que de fato e direito fundaram onde hoje se denomina "distrito de Monte do Caracol". É a caçula dos 78 netos de Marcelino e Contância, pais de seu falecido pai, Eloim. A diferença de idade entre ela e os primos era absurda, entretanto, tendo atravessado a infância a visitar os antigos, enquanto o pai era vivo, cresceu sabendo de cada entrelinha da vida daqueles que hoje, a olhos vistos, definhavam os últimos sopros vitais. 
Consequentemente, Didizinha conhece a eficácia das leis naturais, que se pese as leis de causa e efeito, e as intui em atuação. Estudada e consciente do legado que o passado lhe reservou, toma, não nas costas, mas nos braços as mazelas que surpreendem a descendência de seus ancestrais. Murmúrios, fofocas e mesmo os fatos de sua vida pessoal, cercada de altos e baixos, a mantém assustada com os rumos dos parentes tanto paternos, quanto maternos; e no áice de sua amargura, pela primeira vez, pusera-se em apelo aos mortos, percorrendo as não mais de  60 a 80 sepulturas do desleixado e ressequido solo sagrado do cemitério de Monte do Caracol:
 "-Puuuuta que pariu com força! Vocês aprontam e a gente é que herda?  Clamem misericórdia, que a coisa aqui está feia, está medonha e escabrosa!  Ah neeem! Há menino de 20 aninhos comendo mulher de 40 anos casada com o primo da pai, praticamente debaixo do telhado do corno, bem de frente à casa da própria avó! Há às montas filhas e netas, de cada um de vocês,  adolescentes, dando mais que chuchu na cerca, inclusive dentre os muros da escola, as drogas já chegaram aqui no interior, e é a sua descendência se corrompendo! Não há um osso debaixo dessa terra isento de se remexer com a responsabilidade e o dever de interferir!"
 -A neta de Das Graças te puxou, hein Virgínia. - Riu Aurora.
 -Só nos palavrão, coitada, ou já tinha infartado! Ispia só procê vê do jeito que as coisas estão! Oia se a revolta dela não é justa!?! - E a balzaquiana revoltada, sem saber que estava acompanhada pelos almas dos que ela clamava, continuava a ladainha:
  "-...o passa tempo da maioria das mulheres é boicotar felicidade alheia entoando a Ave Maria, e a dos homens é passar a perna nos outros! As famílias, que deveriam dar exemplo, ensinam que quebrar as regras é normal e que a criminalidade é justificável em troca de terra e dinheiro! As terras aqui são agora lavagem de dinheiro de traficante, e a gente tem que fingir que não sabe da podridão que espalham  como se aqui fosse um esgoto a céu aberto! Cadê os pais, os avós desses merdas!? Nem o clamor do sangue fratricida que já irrigou vocês, foi ouvido? Caim e Abel marcaram território sob os escombros da vida que viveram, e vocês não fazem nada?"
 -Senhor do Bom Jesus, Virgínia do céu, ela tá espumando!
-Ocê tá vendo quem ela "invocou?"
-Oia lá, menina! Não é o turco velho?
-Finge que não viu! Vira, vão virar, virando, Aurora, quero assunto com esse homem não!
-Oia, como ele tá acabado, Virgínia!
-Saiu do raio que o parta pra baixar aqui, de cacheiro viajante, ocê lembra? Com as bugigangas no lombo de uma mula. Fincou morada e ainda trouxe os irmãos! E ó, acabou com o sossego do Morro do Caracol!Comeu a cidade toda que nem um bando de gafanhoto! Dívida, jogatina, devassidão, tudo ele trouxe na bagagem! A justiça tarda mas num falha! Ouvi dizer que ele está para reencarnar, e vai ser por aqui mesmo!- Invisível à reclamante, embora o sol a escaldasse, estrondosos trovões acompanhavam, no plano astral, o soerguimento de muitos que, ainda não reencarnados em regresso, chegavam para ouvir os queixumes daquela que era parente da maioria deles.
"-Vocês não vêem? Quem outrora se apropriou de terreno dos antigos, hoje oferece a bom preço a terra roubada dos avós para os netos, e ainda em deboche cutucam: "Esse terreno já foi de seu avô!" AAAaaaaaahhhhhhhh se aquela neta de uma puta, "que era minha avó também",tivesse falado isso comigo! Pelo útero que gerou meu pai e a mãe dela, por Deus do Céu, que ela ia levar uns safanões! Não sei qual dentre elas é a mais filha da puta. Lila, esposa do que lesou, a mesma descompensada que encera os bancos da igreja com a língua, se apossa do altar sagrado no papel de Ministra de eucaristia, e se alimenta do corpo de Cristo, ou a...cretina da Jordana! Desatinada! Ela não é evangélica? E por isso pensa que nosso avô e nossa avó estão dormindo? E Jesus Cristo pra ela está o quê então; coçando saco enquanto não chega o julgamento das almas? Imagina, uma neta se dispôr a pretender comprar para si o que de seu tio louco e de seus primos órfãos foi tomado em oportunismo ao choro e ranger de dentes de sua família! Mulherzinha besta! Nem que seja no Dia do Juízo Final, a sonsa acha que nem nesse dia não terá de encarar as feridas do desacato que tiver feito nos pais da criatura que a pariu? Ela não tem filhos também? Não vai ser, se é que já não for, avó um dia? É o quela ela quer pra si? Puuuta merda! 
 -Ô Virgínia...É do terreno do marido e do filho de Das Graças que ela está falando?
 -Uai, Aurora...Esse terreno atrás do cemitério, que foi do povo de das Graças, ocê lembra que parece que Tonico Turco largueou as divisas da cerca e se apossou do terreno? Parece que os filhos dele, e ele, partiram e lotearam, e estão vendendo...E Jordana veio ver querendo comprar.
 -Queeeem? Jordana de Das Graças?
 -É! Ocê acredita? Jordana de Das Graças!
 -Ah mas não é possível! Ela já tinha nascido quando Mundinho enlouqueceu e matou a mulher! - Virgínia suspirou.
 -E depois que ele foi preso, pelo próprio pai, e mandado ao sanatório onde morreu...Lembra o que aconteceu? Os meninos dele foram tirados de Das Graças pela família da mãe assassinada, que era de onde mesmo?
 -Ouro Preto, não é?
 -Jordana era criança, mas cresceu sabendo. O mundo é grande, o quê que ela estava caçando exatamente onde o tio desgraçou a vida dele e dos outros? Comprar terreno que foi roubado do avô! Ah não, que decepção!Mais uma decepção com os encarnados!
 -Mas a menina de Didi ainda não tinha nascido.
 -Por isso mesmo! Se ela que não tinha nem nascido, sabe que é errado, seria de se esperar que a neta mais velha, uma das poucas que conviveu com os avós, que deles teve colo e bênçãos, honrasse deles a memória e a lembrança! O quê que Jordana achava que estava fazendo, me diz?!
 -Não deve ter feito por mal.
 -Ninguém nunca faz por mal; mal a si mesmo, de caso pensado, ninguém faz; mas pensar nos outros? Jordana não pensou nos avós nãaao! Aurora, vou te contar uma coisa, o ser humano faz, fez, fazia e fará contra os outros sim, e é por isso que o mundo está desse jeito!
 -Você não lembra os desaforos que passamos quando nosso sobrinho vendeu nossas terras para o Nagib turco, sabendo que a gente não aprovava esses turcos aqui em Morro? - O olhar de Aurora ergueu-se das divisas do cemitério tentando enxergar, adiante da rodovia asfaltada, onde antes havia sido delas. Agora tá lá as nossas terras, servindo de lavagem de dinheiro e renda ilegal. Que vergonha, meu pai do Céu!
 -Nós pedimos isso né, Aurora! A gente foi cretina também, minha irmã! Eram muitos sobrinhos! Esse negócio de usufruto, de passar a propriedade em vida em nome de um só, apadrinhando safado...Quer saber? A gente se gabava quando imaginava que os outros sobrinhos não iam herdar um pé de manga ou uma jabuticabeira! Taí ó! Nenhum parente nosso come o que plantamos, mas nossos desafetos chupam, arrotam e ainda lucram! É a vida! Não poderia ter dado noutra coisa! Ao menos pagamos vivas pelo que fizemos! Das Graças pra essa menina, Jordana, foi muito boa avó! O caso dela é diferente. Era a filha de sua filha mais velha! E a neta desconsiderar isso!?
 -Muito barulho por pouco, Virgínia! Grave foi o que aconteceu conosco! Eu ainda sou sentida! 
-Sentida de quê? Fizemo coisa errada e pagamo, uai! Bão pra gente aprender não desfazer dos outros!
-Êta paixão, êh dor, saber que mesmo comigo viva Geraldo havia vendido o que era nosso pra Nagib turco! Nós agonizamos e morremos sabendo que aquilo que era nosso já pertencia a nossos desafeto, a pessoas ruins, que tinham desgraçado a cidade toda depois que aqui pisaram! Ôh humilhação...
-Quer seu terreno de volta? Vai lá, nasça no meio deles!- Debochou Virgínia!
-Ah ocê tá doida! Deus me livre e guarde!
-Seeeeu sobrinho Geraldo não tarda a vir prestar contas!
-Agora o sobrinho é só meu?
-E faça bom uso dele! Deve estar pra chegar! Não vai demorar muito no mundo mais não!Que  ele  receba o reino da glória, desde que eu não tenha de ir à casa de São Pedro nem a passeio! Se Geraldo estiver lá, prefiro o purgatório! Melhor vagar no mundo, errante, a ter de topar com esse infeliz tão cedo! Perdoei por necessidade e não por vontade! Ele não tarda a bater as botas e o que ele fez com a gente é só uma das faltas dele! Ordinário!- Avoada, Aurora limpava os cantos úmidos dos olhos, enquanto Virgínia praguejava no mundo dos mortos, e Didizinha, no mundo dos vivos. Desconversando com a irmã.
 -E por que Didizinha está xingando Lila e Jordana?
 -Por que Lila cutucou Jordana, quando Jordana foi lá ver o terreno. A própria Lila perguntou à Jordana se ela sabia que aquele terreno tinha sido do avô e do tio dela. Lila, aquela cobrinha que pra picar os outros se espreita pelas quinas da igreja! Hum! Essas hóstias consagradas que Lila meteu goela abaixo esses anos todos, com descaso ao próximo, sem caridade e humildade no coração, Deus que me perdoe, mas devia tuuuudo revirar nos intestinos dela, torcer e retorcer lá dentro em nome e honra de Jesus de Nazaré e o sofrimento que o filho de Deus passou nesse mundo, pra ela aprender a usar o nome e a casa de Deus sem seguir os mandamentos.
 -Você xinga demais, Virgínia! Como é que você sabe dessas coisas?
 -Eu só estou morta! Ainda existo! Não sou surda, minha cabeça e minha visão estão melhores que nunca! Percebo, vejo, ouço, penso, reflito, analiso, observo... 
 -E fofoca né Virgínia!
 -Fofoca é conversa inútil. E eu não teria permissão pra fazer isso! Eu sou é atenta! Fico mesmo de orelha em pé! Nessas horas é preciso saber o que está acontecendo até pra rezar melhor! Acha que vou deixar esses bandoleiros astrais chegarem e ocuparem nossas terras, apagando nossos sobrenomes, nossos costumes e nosso legado,  em troca de sobrenome de gente fracassada que só desembarcou e migrou no interior do Brasil por não ter dado nada que prestasse em suas terras natais?
-No Brasil somos todos imigrantes.
-Uns vieram por amor, outros por dor. E os que vieram por dor, só dor espalharam!
 -Você fala dos vivos como se não houvesse outras vidas!
 -Sei que há. Sei que devo ter sido muita gente antes, e serei outras tantas depois...E é por isso que fico braaaava! Imagina se eu chegar a encarnar no meio desses pervertidos morais, que não me transmitirão nada que preste?! Prefiro ser mendiga de arroz com feijão, do que mendicante da clemência de Deus pelo que eu tiver feito no mundo me vendendo! Temos de combater o mal onde o percebermos! E Morro do Caracol ficou carente de misericórdia mesmo, desde que esses turcos aprontaram na casa de João Rabelo, essa que é a verdade!
 -Cala a boca Virgínia!
 -Calo nãaaao, Aurora! Calo não.
 -Alá ó! É Dorinha está chegando!
 -Cadê ela? - E dentre os mortos erguidos, a mãe da beata, uma das tias paternas de Didizinha, sem graça, abatida, se aproximava da filha de seu irmão para asserená-la com vibrações, talvez a recorrer ao perdão pela desfaçatez da filha Lila. - Êeehhhh Dorinha...-Virgínia e Aurora se aproximaram da amiga. - Pai faz, filho come e neto morre de fome no nosso terreiro. O que a gente fez de tão errado, Dorinha? Nosso povo nem se entendia, hoje as famílias estão aí, tuuuudo um sangue só, uma só carne, inclusive com os turcos, pra ensinar a gente o que não quisemos aprender enquanto pisávamos no chão da vida.
 -E a gente fica numa situação tão difícil, Virgínia! Ôh Aurora! 
-Pois é...nossa sobrinha está chateada com sua filha e seu neto, e com razão!
-Esqueceu, Virgínia, que é MINHA SOBRINHA CAÇULA, além de sua sobrinha-neta? Não pense você que meu coração não sangra! Lila quando casou...Não tinham os turcos se desentendido com os irmãos de minha mãe? Um deles, casado com  minha tia, não havia sido morto pelos meus tios, quando foi pego espancando a esposa?
 - Ah mas aquele turco era danado, crendospai todo poderoso! Olha onde ele até hoje...Deixa pra lá!
 -Mas foi a raça de minha mãe, a raça de minha tia, que assim como a de vocês eram os pioneiros legítimos desse lugarejo, que ficou suja pelo crime cometido. Meu avô se ressentiu pelo casamento da neta, e da bisneta, com os sobrinhos do turco morto, e que levou os filhos dele a passarem quanto tempo presos. Meu avô quase foi à bancarrota, tendo de se desfazer da maior parte da fazenda para bancar advogado e cuidar dos netos, filhos dos filhos que estavam presos! Mas nem Lila nem Mariínha quiseram saber de mais nada, e o destino se cumpriu. Sangue de assassinos e do assassinado, sangue dos que foram suplantados, e sangue dos estrangeiros sem eira e beira, se misturaram...E hoje parece que tudo se repete. Netos desvalorizam dores de avós, filhos ignoram aquilo que os pais não se deram ao trabalho de ensinar, e quando no umbral alguma luz ameaça a brilhar, é brilho fosco de tristeza e lamento, como o da minha sobrinha caçula, Didizinha, neta da sobrinha de vocês duas. Deus tem seus propósitos; mesmo que a desculpa seja a amargura de uma descendente por causa de terra.
 -Uai, mas Didizinha não está assim por causa de terra!
 -Não.Só que a minha filha Lila, a neta primogênita de sua sobrinha, Jordana, meus próprios netos, um inclusive político, e os que ao redor souberem que ela se ressentiu com a venda proposta do tal terreno para os parentes do homem lesado, que era seu avô, vão chamar Didizinha de louca e implicante; ao marido de Didiznha mesmo foram oferecidos lotes...E quem ofereceu, embora seja turco, é metade ELA, metade minha através de minha filha. Meu próprio neto Carreirão! Carreirão não faz ideia da tristeza que causou na filha do tio-avô, um tio a quem ele não ouviu, um tio que sonhou pra ele um futuro promissor, e que Carreirão não deu valor, não seguiu, não realizou...Como se Carreirão não conhecesse o peso do braço de Deus quando erguido! Ôh meu Deus!São todos bestas, sem maldade, embora pensem que são espertos demais! SÓ Jesus na causa! É por mim, e minha mãe, que Didizinha segura o espraguejamento que lhe corrói a alma! Ela está destinada a passar cada situação...
-Aaaaahhhh, então é por isso...Ofereceram pro marido dela as terras do avô!
-Justamente! Didizinha de imediato repudiou a oferta que Carreirão fez ao marido dela; por amor aos avós que nem conheceu. E quando soube que a prima havia se interessado na compra, e pior ainda, quando soube que Lila cutucara a prima materna...Didizinha ficou entre a cruz e a espada. Uma, a que cutucou, sobrinha de seu pai, e Jornada, "cutucada", também sua prima, sobrinha de sua mãe.Uma sobrinha que, na visão de Didizinha, agiu mal. 
 -Só mesmo a fé na vontade do altíssimo para nos fazer aceitar Didizinha ter voltado, e casado aqui.
 -Aaaahhh se a mãe dela fosse viva!
 -Era pra ser assim. E o rapaz, neto de minha irmã, é bonzinho.
 -Mas as irmãs dele não têm consciência! Que mulherada  esquisita e mal agradecida! Quanta beleza por fora..."por fora bela viola, por dentro pão bolorento"! Cruz credo! Deus me livre! Uma delas é igual sua filha, Dorinha! 
-Qual delas?
-A madrinha de Juliano!
- Reza, bate boca com terço e rosário, mas com o mal nas veias, acha que está debaixo do manto da mãe santíssima, e de lá dispara maldade, como se Nossa Senhora Aparecida não percebesse seus intentos! De quê adianta ir a Aparecida do Norte todo ano em romaria e não ser capaz de adestrar boca, pensamento, atos e coração? Com o neto a morte, Didizinha ajudou tanto, rezou tanto...E hoje se depender dela a filha de Didizinha cresce sem pai, por que se deixar ela separa Juliano e Didizinha com a língua dela! -Virgínia azedou ainda mais o semblante. - Esse povo é esquisito sim!
 -Não devemos julgar, sabe disso, Virgínia!
 -Ora, Aurora! Dorinha, quando a gente vem numa família, a gente sabe que é pra passar provação que a herança do corpo, e dos feitos do mundo, põem lá pra gente! Tô mentindo Dorinha?
 -Está não.
 -Pergunto: Tem herança pior que essa nossa? Herança de maldade, futrica, hipocrisia e leviandade?
-E que família é diferente?
-É triste a gente ter de ficar por aqui assistindo, sem nada poder fazer por esse bando de emprestáveis! Sim, porque como espíritos são dignos de evolução, mas enquanto matéria são corrompíveis demais da conta! Passam dos limites! Oia aí! Essa menina, hoje com quase 40 anos não teve família quando ficou órfã! Nem a cretina da beata que é sua filha Lila, nem nossos sobrinhos, tios e primos dela, poucos dos que muitos que já eram maduros,  ninguém estendeu um prato de comida, uma voz amiga, um abraço dos vivos! Quantas vezes foi seu avô Dorinha, ou mesmo uma de nós a envolvê-la com oração, e olha, é ela, a caçula, a invejada, a estudada, a que se sobressaiu e poderia ter ganhado o mundo, é exatamente ela que voltou e chora pelos que quiseram seu mal, toma as dores daqueles a quem as dores dela sempre foram indiferentes, ou motivação de contentamento, é ela quem sofre a ponto de abrir os portões da morada dos mortos pedindo intercepção! A que ponto se chegou! A ponto de uma descendente, que nada possui dos ancestrais, além de um nome na certidão de nascimento, ter por seus mortos mais respeito do que aqueles que pedindo bênça, tiveram quantas vezes por resposta "Deus te abençoe"! O pago da nossa descendência dói demais!"
 -Virgínia, os genes do clã que vocês pertenceram, e que Didizinha herdou, é um clã avançado, com linhagem direta aos filhos de Jacó, daí pautarem tanto a ética, o escrúpulo, o respeito, quando os espíritos que em tal sanguinidade encarnam a tais preceitos se comprometem a seguir, mas aqui esses valores são cifras que a maioria não dispõe ainda, e não conhecendo, nem tendo, como haveria de usar? Há muito a ser contado, quer seja sobre as razões de Didizinha se exaltar, quer seja sobre as emboscadas que ela enfrenta, e mesmo sobre as razões de estarmos aqui...
-Entre saber, entender e não poder agir há um grande abismo. E tentar cruzar esse abismo custa caro demais, mas, e se for a ação necessária para uma nova chance a nossos descendentes?
-E se ao agirmos provocarmos um mal maior?
-E se nada fizermos?
-Como nada? Podemos Virgínia, podemos orar e intuir aos que estiverem em sintonia com nossas vibrações!
-Quantos estarão?
-Se intuirmos a  Didizinha ela endoida! Não vai aguentar a pressão!
- E ocês se deram conta de como o cemitério tá enchendo? - Dorinha baixinha e franzina olhou a seu redor, reparando o comentário da dócil Aurora.
-Ela nos queria ouvindo e orando. Os que tiverem permissão para tanto se juntarão a nós, Aurora.
-Se ela pudesse nos ver...Saberia que não está sozinha!
-Ver ela não pode, mas nos pressente; sabe que está em casa; vê como anda jeitosa,se assenta com carinho nas beiras dos sepulcros, para não nos pisar ou ofender?
-Ela já se pareceu muito com o pai, mas a idade trouxe à tona os traços de nosso povo, não é Aurora?
-Mais que os traços, a personalidade também. Deus a guarde!
-Por hora as convido a orarmos. Nossa parente precisa de nós, para evitarmos que a tristeza e o rancor, pela falta inconsciente das duas primas, uma Lila minha filha, e a outra, Jordana, sobrinha de vocês a envenenem...Didizinha não gosta de viver, não aprecia o mundo, é apegada aos que já foram, e muitos deles a ela. Peçamos a Deus para que ela tenha resignação e força, a fim de cumprir ela própria, seu destino. Se queremos mudar o futuro, pensemos juntas, e com o apoio de Deus, a inspiração correta para apascentarmos as ovelhas de nossas casas, surgirá. Oremos.
"Três almas de terço entre as destras, à dianteira de outras tantas almas, que aos poucos se apresentariam, fizeram o sinal da cruz e todas elas, almas benditas guardiãs de sua gente, verteram suas orações!
  Assim que Didizinha saiu do cemitério uma tromba d'água repentina e breve apascentou o calor...Os céus, reconhecendo um coração caridoso, lavou suas dores para que a cura se iniciasse. Assim age o Criador, em permanência e silêncio, obrando a evolução gradativa de caso a caso, e tudo a seu devido tempo!"

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