25 outubro 2013

"Não, eu não sei para onde vou, nem quando...Mas não me é indiferente de onde vim, e a tecnologia atual só me pasma, ainda mais quando pesada a rotina dos ancestrais que nos precederam... O que vê?
VEJO UM LAR, UMA FRONDOSA ÁRVORE GENEALÓGICA que alastrou galhos tão extensos e vastos que, cresceram demais para reconhecerem, dada às alterações de costumes e época, onde e quais são suas origens...As raízes se perdem de nossa memória, soterradas nos escombros que careceram, para tanto, quantas vezes, ruir com a simbologia erigida em paredes no pretérito.
Consigo sentir o cheiro da madeira e das telhas de barro acima de um telhado sem forro, e ouvir as conversações nos cômodos da casa que não segredavam as vidas uns dos outros. Sem televisor ou qualquer contato com o mundo, percebo as pessoas se comunicando à luz de lamparinas, contando casos e sobre o sucedido nas vidas de terceiros conseguindo tirar conclusões racionais, ou perceptivas à atuação do Poder Superior no qual, com maior afinco, criam, em manifestações constantes.
Consigo idealizar o penico debaixo da cama, para as noites, e a foça do lado de fora da casa, para as necessidades fisiológicas. As camas de colchões endurecidos, e travesseiros aromáticos pelas ervas com os enchia; bacias com água e os recipientes para a higiene matinal, quando não eram feitas à beira de uma bica, com grelo de goiaba e quando muito bicarbonato para os dentes, e sabão de gordura vegetal.
Sou capaz de sentir o toque das roupas de cama bordadas, costuradas à mão, e os vestidos bem cortados que as mães coziam para as missas dominicais. Consigo entender que nem todos tinham bons sapatos, ou nenhum.
Ante o cruzeiro da entrada de cada propriedade, ajuntavam-se os foliões do dia de Reis ou as mulheres que se encaminhavam, a maioria a pé, por quilômetros, para suas novenas.
Vejo e pressinto os partos difíceis, e tão fora de acesso aos cuidados médicos ausentes. A aflição por uma enfermidade filial em infantes com menos de dois anos...
É palpável a idealização dos mandiocais, o ralar da mandioca e sua colocação para escorrer, dali extraindo o polvilho para as fornadas de biscoitos e roscas. Sentindo o aroma das geleias da fruta da época, e o odor dos currais ao findar a madrugada,quando se então tirava o leite para que com o coalho fosse feito o queijo, da nata a manteiga, os doces e o café co leite...E o café, torrado na hora e coado em coadores de pano...
Ver uma construção rural arcaica é como enxergar o útero nativo, ao mesmo tempo descortinando o romper do avanço.
Quantos de nós sobreviveríamos hoje, se rompesse uma calamidade que desativasse toda nossa tecnologia? Um dia fomos filhos de sobreviventes, e hoje somos usuários da ideologia pretensiosa que nos repele quando o assunto é aprofundamento em nossa historicidade.  
É o que vejo nas ruínas de um lar outrora eficaz, para nos permitir o nascimento de uma continuidade abstrata...

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